Buenos Aires de domingo a quinta - El Preferido e Cerveceria Antares

Buenos Aires de domingo a quinta – El Preferido e Cerveceria Antares

De Buenos Aires:

Tomamos o rumo de Palermo Viejo para encontrar nosso amigo Arturo no local combinado, o meu bodegón predileto em Buenos Aires: o El Preferido. O nome já diz tudo mesmo. Conhecíamos a casa de nossa outra passagem pela capital da Argentina e foi amor a primeira vista. Um belo armazém centenário, tocado desde 1952 pela família de um imigrante asturiano – que coincidentemente tem o mesmo nome de meu amigo galego, Arturo. Não me estranha o fato de Arturo, o galego, ter também com o El Preferido, uma relação de afeto – até porque mora quase em frente ao bar.

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Sentamos numa mesa de canto com vista privilegiada do ambiente

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Ao nosso lado grandes potes com diferentes tipos de azeitonas recheadas

Muñeca e eu chegamos um pouco antes do horário acertado, e nos sentamos nos banquinhos junto a uma das mesas altas e de cor verde do bodegón, encostados na parede ao lado da porta. Dali eu tinha uma vista privilegiada do ambiente. Confesso que essas casas de que muito eu gosto me deixam até nervoso de ansiedade. São tantas as coisas que eu gostaria de provar, tantos detalhes a observar, que me quedo inquieto, com os olhos a girar por todos os cantos, a ler e reler o cardápio de cabo a rabo.

Estávamos com muita fome e fome em excesso é sempre ruim, pois acaba por nublar a capacidade racional de uma escolha. Devia ter aguardado o meu amigo chegar, para que me sugerisse algo a comer, até por educação. Mas não, já mandei ver num pedido assim que o garçom resolveu dar as graças. A Picada Vegetal (55 pesos) me pareceu uma alternativa boa para começar. Não muito pesado.

Eu não supus, no entanto – mas deveria até pelo preço – que a opção seria tão gigante. Uma grande travessa com Piclkes, esparragos, choclitos (milho pequeno em conserva), ajies (uma pimenta em conserva ardidinha e deliciosa), aceitunas, palmitos, alcaucines (miolo de alcachofra), champignones, papas com perejil (batatas com salsinha picada), morrones (pimentão verde), porotos (favas), tomates cherry, berenjenas e pencas (couve-flor em conserva). Junto aos comes, solicitei também uma cerveja Patagônia. Achei a bebida, servida em garrafa 600 ml, um pouco mais forte e amarga do que a Quilmes. Gostosa.

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As conservas estão entre as especialidades do bar e estão por todos os lados

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A enorme Picada Vegetal. Muito boa, mas um exagero para aquela noite

Dá para reparar que uma das especialidades da casa são as conservas. Elas estão por todas as partes. Ao nosso lado, para deleite do público, alguns enormes potes de azeitonas recheadas aguardavam a vez de serem abertos. Por onde se olha, há conservas e latas dos mais diversos produtos. O pequeno salão, munido devidamente de ar-condicionado, começava a encher enquanto aguardávamos a chegada de Arturo, nos deliciando com a festa vegetal. Há também uma área externa anexa, onde é possível observar o movimento da cozinha. Mas no calor que fazia na cidade, não é nada recomendável. No salão interno, desta forma, estávamos muito bem ajeitados para a missão de devorar as iguarias da picada.

Como bem disse Pietro Sorba em seu livro Bodegones de Buenos Aires, é um milagre que o El Preferido permaneça praticamente idêntico e com a mesma proposta, desde a abertura, sobrevivendo à intensa transformação da região de Palermo. É como um ponto de resistência em meio aos restaurantes descolados e moderninhos, os hotéis boutique (estão por todos os lados e difícil é achar um que não seja), e os imponentes edifícios de concreto rasgando o céu e o horizonte de pequenas e simpáticas casas do tradicional bairro. Por outro lado, tenho a impressão de que o bodegón é moderno justamente por ser o que é. A levar em conta o público jovem que foi ocupando as mesas da casa aquela noite, o velho armazém ainda vai durar muito naquela esquina da Calle Jorge Luis Borges.

O El Preferido está longe de ser um desses estabelecimentos que parou no tempo e deixou o ar de decadência dominar. É um lugar bem arrumadinho e atraente, com suas cores vivas (estraga um pouco a iluminação fria), um ótimo cardápio de picadas e pratos interessantes em conta.  Falta apenas o wi-fi. Então, onde estão os brasileiros? Tenho a impressão de que a melhor maneira de se fugir de um brasileiro em Buenos Aires é frequentar um bodegón. Parece-me que este típico estabelecimento portenho não é muito ao gosto tupiniquim. Talvez as parrillas da moda e os restaurantes descolados o sejam. É mais um milagre do El Preferido, está no coração de Palermo Viejo e pouco se vê gringos em suas mesas.

Arturo chegou e a picada vegetal ainda resistia em nossa frente. Foi um erro pedi-la. Na presença de meu amigo solicitamos uma nova picada, a Gran Picada. Outra enorme travessa chegou à mesa com salame, cantimpalo, comito, mortadela, matambre, longaniza, cerdo salsichones, aceitunas, queso, salshichas copetin, boquerones, choclitos, acacines, berenjenas, pan. Deveríamos apenas ter escolhido esta última, pois além de mais variada – com carnes e salames – também incluía muitos dos vegetais que comemos no primeiro pedido. Um desperdício, ainda mais quando eu comecei a observar uma porção de travessinhas com lulas e fritas cruzando o salão.

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A Gran Picada já tinha muitos dos vegetais que comemos no primeiro pedido

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Boa pedida: Língua à vinagrete

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cerveja Patagônia agradou

Um dos poucos lugares onde meu amigo galego recomenda apreciar frutos do mar em Buenos Aires é o El Preferido. A casa, segundo ele, serve alguns moluscos que se aproximam – ainda, no entanto, muito distantes – dos servidos em sua terra e dos apreciados no Rio de Janeiro. Entre os grandes pedidos do bodegón estão os tais Anéis de Calamares com Papas Fritas. Algo que eu nunca vi semelhante em lugar algum. Os grandes anéis são feitos ao vapor e servidos em uma quantidade interessante junto com as batatas fritas. Uma visão extraordinária. Eu, completamente picado, já não seria mais capaz de apreciar aquilo. Pena que não saquei uma foto, mas logo providenciarei uma imagem para vocês entenderem melhor o drama.

Pedir duas picadas foi um exagero maior considerando ainda o fato de eu ter almoçado picada, e jantado anteriormente no El Federal semelhante pedido. Eu deveria ter sido um pouco mais criativo. Fica aqui minha autocrítica. Depois do El Preferido não volvemos a comer picadas, é claro. Tenho de frisar, no entanto, que a Gran Picada é uma ótima escolha para quem ainda não foi picado o suficiente. Ao menos meu amigo Arturo foi bastante feliz ao pedir junto à segunda picada, uma porção de língua a vinagrete. Uma delícia. A iguaria é comum nos bodegones de Buenos Aires. Muñeca e eu já tínhamos provado no ótimo restaurante Manolo, em San Telmo, da última vez que estivemos na cidade.

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Os cilindros com cerveja atrás do balcão do bar Antares…

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…e a degustação com os sete estilos lá fabricados

O dia intenso de segunda nos cansou, mas não suficiente para nos fazer desistir de uma saideira numa cervejaria ali perto. Arturo não nos acompanhou – nós estávamos de férias, ele não. Seguimos pela noite sempre agitada de Palermo até a filial da Cerveceria Antares de Palermo. O grande salão e a luz baixa chega a dar a impressão de que se trata na verdade de uma boate, mas é uma cervejaria mesmo. Não estávamos buscando propriamente a agitação toda do moderno estabelecimento, nem a música alta que jorrava pelas caixas de som. Queríamos apenas provar a seleção de sete estilos de cerveja da casa e a melhor maneira foi pedindo Degustación Antares por 24 pesos. Esquema legal esse! Pequenos copos com provas de cada um dos sete tipos de cerveja ali fabricados. Deu para nos divertir.

Kolsch, Scotch, Porter – boa, pedimos para repetir, Honey Beer – segunda melhor, Cream Stout – estranha, boa, com menos gás. Interessante, Barley Wino e Imperial Stout. Todas acompanhadas de uma pequena explicação. Das sete, eu só gostei mesmo de duas, a Porter – que pedimos para repetir de saideira – e a Honey Beer. Uma terceira me agradou por exótica: a Cream Stout é estranha, pois tem pouco gás e é leve, apesar da coloração escura.

Após a cervejada encerramos nosso segundo dia de jornada por Buenos Aires.

El Preferido de Palermo

Endereço: Jorge Luis Borges 2108 (esquina com Guatemala), Palermo Viejo, Buenos Aires.

Aceita apenas cartões Amex.

Horários: Segunda a sábado de 8h as 23h30m.

Contato: (11) 4774-6585

Cerveceria Antares

Endereço: Armenia 1447, Palermo, Buenos Aires

Horário: Todos os dias, somente na parte da noite.

Contato: (11) 4833-9611 / palermo@cervezaantares.com

Para saber mais: www.cervezaantares.com.ar/blog/palermo