O Armazém da Rua do Jogo da Bola

O Armazém da Rua do Jogo da Bola

Do Rio de Janeiro:

Dei com a cara na porta fechada do armazém diversas vezes das muitas que estive a passear na Rua do Jogo da Bola, no Morro da Conceição. Aquele horário de cidade de interior pega os citadinos, os seres do asfalto, desavisados. Onde já se viu um bar fechar na hora do almoço? Talvez seja a origem espanhola (muito provavelmente galega) e a tradição da siesta. Fato é que o Morro tem as suas próprias regras e o seu próprio tempo. O armazém fecha de quatorze as dezesseis.

Voltei ao Conceição para um novo passeio, um de meus prediletos no Rio. Eram quatro e pouco. Não acredito! O armazém ainda está fechado! Falei para mim mesmo. Desta vez não desisti e aguardei junto a um sujeito a balançar as pernas. Estou louco para ir ao banheiro e o bar ainda não abriu. Disse-me.

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Já por mim parte, queria mesmo uma cerveja e sacar várias fotos do estabelecimento, onde só havia estado antes em duas oportunidades, as quais poucos registros fiz. Minha intenção foi documentar aquilo lá, antes que os ventos de mudança corram as ladeiras de paralelepípedos acima e tudo se transforme. Rodei um pouco mais a volta, admirando a vida calma daquele lugar, registrando o casario. Eu é que no fundo parecia estar sendo observado todo o tempo. O que faz este sujeito por aqui? Mais um turista! Talvez fossem os pensamentos daquela gente.

O Rio é cheio desses cantos escondidos, ambientes preservados arquitetônica e culturalmente, um retrato de um ritmo e um estilo de vida que a cidade deixou de ter ao longo dos anos. São áreas quase sagradas, mas nada é sagrado para o progresso e a máquina econômica. A cidade cresce engolindo tudo e tudo gira. O Morro será tomado pelo asfalto dia sim, dia não. É inevitável.

Voltei ao armazém e o dono começava a subir as portas do bar. Não fez muita cara de boa amizade comigo. Logo que todas as portas foram abertas, pus-me a entrar após pedir licença, pois em bar de interior há de se pedir autorização para se estar. Sentei numa mesa num canto, junto da rua. Pedi por uma cerveja.

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Na verdade o lugar é mais conhecido como Bar do Sérgio, mas para mim é Armazém da Rua do Jogo da Bola. Que casa bonita, uma preciosidade. Digo isto porque não se encontra um armazém como aquele ainda em pleno funcionamento em qualquer esquina da cidade. É um lugar onde é possível ver clientes a entrar para comprar um Bombril, por exemplo – Como testemunhei aquela tarde. Típico armazém galego-carioca com direito a azulejos azuis e brancos na parede, balcão de mármore avermelhado, estantes ainda exibindo centenas de produtos de primeira necessidade, de biscoitos, passando por enlatados a artigos de limpeza.

Talvez eu tenha sido demasiado abusado ao tirar minha máquina fotográfica da bolsa e sair disparando fotos por todos os cantos, mas foi irresistível. Imagina! O dono não gostou, não gostou de mim, não tava afim. Mesmo assim fui lá me apresentar. Estava curioso para saber um pouco mais sobre o armazém secreto de horário restrito. A única informação que me deu é a de que herdou do pai a casa. Depois bufou na minha cara: não queria nada de propaganda e de negócio do bar sair em jornal. Para ele, divulgação só estraga.

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Deixe-lhe um cartão e voltei humildemente a minha mesa. Estava constrangido, fui muito mal tratado. Escutei-lhe seguir com mais palavras à distância, enquanto jogava dados com outro cliente no balcão. O cara não estava satisfeito com este negócio de obras (referindo-se ao Porto Maravilha). Tudo vai estragar aquele lugar (o Morro da Conceição), segundo ele. Até assaltos começaram a acontecer por ali, coisa que não havia anteriormente.

Meu irmão chegou. Contei o ocorrido. Tomamos em silêncio o restante da cerveja, deixei um dinheiro sobre a mesa, agradeci a atenção e fomos embora, caminhar por outras bandas. Compreendi a reação defensiva do dono do armazém. Porque ele haveria de quer mudanças por ali? Para tirar-lhe a vida tranquila, a clientela de sempre, seu ritmo lento, sua parada para siesta? Quem afinal quer uma porção de turistas a invadir o bar, tirando fotos, fazendo perguntas, a arrumar confusão e reclamar do serviço? A visão do inferno.

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Todo mundo agora encheu os olhos para o bairro da Saúde. As reformas são bem vindas e são boas e são ruins também. O Morro da Conceição deixará de ser o que é. Como evitar? Não dá. É irônico que ao valorizarmos a história e as áreas da cidade mais antigas, que há tempos foram esquecidas, corremos o risco de terminar de sepultá-las de vez.

Espero poder voltar ao Morro da Conceição daqui a um tempo e encontrar o mesmo sujeito mal-humorado jogando dados atrás do balcão e ao mesmo tempo ver que todo o bairro e as regiões em volta sofreram significativas melhorias de infra-estrutura e serviço. Espero poder ver outros moleques a jogar bola na Rua do Jogo da Bola, como agora o fazem. Espero que o ritmo de vida siga da mesma maneira, mas que tudo fique melhor por lá. Porém duvido que o progresso e a manutenção do ambiente cultural consigam caminhar juntos. Verdade é que tudo vai sofrer uma significativa alteração e no fim só restará uma casca (o casario). Por isso, quem não viu que veja agora.

Talvez eu não devesse divulgar o armazém do Morro, mas divulgando ou não, não serei eu – que pretensão teria! – o culpado pelos ventos da mudança. Melhor que indique o local e que peça por sua preservação. Sim, podem ir lá, mas preservem. Cheguem devagar, curtam o silencio o ritmo das horas lentas. Não entrem em grandes grupos. Não vão de carro (o legal é subir as ladeiras do morro a pé). Não perguntem nada. Se quiserem, podem comprar um Bombril. Esqueci de dizer, há salames e sanduíches aos que tiverem fome.

Armazém da Rua do Jogo da Bola (Bar do Sérgio)

Funciona de segunda a sexta das 9h às 14h e das 16h30m (para garantir) às 22h. Sábado, das 9h às 22h. Domingo, das 9h às 18h.

Endereço: Rua do Jogo da Bola, 44, esquina com a Rua Mato Grosso (Morro da Conceição) – Saúde. Rio de Janeiro (RJ).

Contato: (21) 2253-2643