Choripan no Minhocão – um domingo de sol, multidão e chefes na rua

Choripan no Minhocão – um domingo de sol, multidão e chefes na rua

De São Paulo:

Dentro da extensa programação da Virada Cultural de São Paulo, eu particularmente fiquei tentando em ir ao Centro na manhã de domingo para o evento Chefes na Rua que reuniu alguns célebres nomes do panorama gastronômico paulistano em barracas montadas ao longo de um trecho do Minhocão, na região de Santa Cecília.

Se não tive disposição para acompanhar alguns shows de madrugada – por mais interessantes fossem – muito menos eu me propus a enfrentar a multidão para provar da galinhada do Alex Atala (alguém esperava que não fosse acabar em confusão?), acordei cedo na domingueira ensolarada e na companhia da Silvia e da amiga Mari, tomei o metrô para tentar ao menos descolar algumas porções de comida ofertadas nas barraquinhas dos chefes.

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (10)

A pequena churrasqueira estava longe de dar conta da procura pelos Choripans do Checho

Para mim seriam dois programas em um: além dos petiscos, conhecer o próprio Minhocão. O Elevado Costa e Silva, que rasga um dos bairros mais tradicionais da capital paulista é (junto com a perimetral no Rio de Janeiro) uma das obras mais insanas e grotescas que o poder público planejou na história do Brasil. Tornou-se um cartão postal às avessas.

O Minhocão é uma obra tão bizarra que 10 anos depois de inaugurado o próprio poder público que incentivou o monstro já pensava maneiras de poder transformá-lo em pó. Era tarde, os automóveis logo lotaram a passagem e numa cidade que cresce loucamente como São Paulo, a possibilidade de cortar qualquer via expressa é remota.

Já tem algum tempo que o elevado (que fecha a noite por causa do barulho, pois fica em alguns trechos a poucos metros das janelas dos apartamentos dos bairros que o cercam) ganhou uma segunda função, a de área de lazer para moradores locais aos domingos. Paradoxalmente, o mesmo Minhocão que detonou o bairro de Santa Cecília, entre outros, também é um ponto de reunião da população.

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (8)

Quando chegamos, o movimento ainda estava bem descente…

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (9)

…já para meio dia o negócio ficou um pouco mais cheio

Confesso que de cima do elevado tem-se uma perspectiva fantástica da área central da cidade de São Paulo, mas nada que fizesse alguém mudar a minha convicção de que o melhor seria mesmo botar tudo abaixo. Chega de minhoca e vamos ao pão. Sim, Choripan.

Até me deparar com a quantidade de gente circulando entre as barracas eu acreditava que conseguiríamos ao menos comer alguns petiscos – que comporiam um brunch bem diferente. O sol forte na careca e a aparente falta de banheiros químicos acessíveis (não vi nenhum em cima do viaduto), no entanto, me fizeram cair na real: “Acho que no máximo uns dois pratos…” pensei em seguida.

O primeiro seria o Choripan do chef Checho Gonzales (um dos idealizadores do evento, por sinal). Sou um fã do clássico sanduíche argentino, um simples e maravilhoso lanche de linguiça (chorizo) com molho chimichurri que considero como umas das maiores contribuições de nossos hermanos para a humanidade.

A fila de espera não nos espantou. O evento estava cheio, mas até que relativamente bem organizado. Afinal, havia chefes famosos, mas nenhum mega estrela como Alex Atala e, além disso, diferentemente da madrugada, onde a galinhada foi distribuída gratuitamente, os pratos de domingo eram pagos. Baratos? Alguns sim, mas os dez reais cobrados pelo choripan me pareceram justos, não baratos.

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (4)

A galera estava ávida (incluindo nós) pelos sanduíches da barraca…

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (5)

… e a equipe teve que correr atrás para atender todo mundo

Sobre o Atala vale um adendo: gostem dele ou não, certamente é o primeiro nome da gastronomia nacional que ultrapassou a barreira do mundo gastronômico e se tornou uma espécie de ídolo pop nacional do mundo da comida. Só que diferentemente de um ídolo do futebol, ou da música – por exemplo – pouquíssimos têm condições de ver o Alex jogar sua bola, cantar os seus hits, ou mover suas panelas. Quando pinta uma oportunidade, o que acontece? A galera vai atrás. É 0800? Aí mesmo que brasileiro gosta. E o mais fascinante é que o chefe nem conseguiu chegar perto do Minhocão tão cheio estava durante a confusão da galinhada.

Voltando as barracas: mesmo com a intenção de democratizar as criações de chefes renomados, fazendo umas continhas, nem todo mundo (ainda mais uma família) está disposto ou tem condições de gastar dez daqui, dez dali, mas cinco do refri… Porém, sendo uma cidade mega como São Paulo, mesmo quando falo de um público mais focado e interessado em gastronomia estamos tratando de uma multidão.

Além da falta de banheiros, em cima do Minhocão nada de álcool. Nem uma cervejinha. Neste ponto, tudo bem, estava mesmo um pouco cedo para começar a biritar. Apesar do frio, o sol tava brabo. Enfrentamos a fila de meia hora numa boa e fomos coroados com os choripans. Estavam ótimos! Vale um especialíssimo elogio ao molho chimichurri.

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (7)

A espera foi recompensada com um ótimo sanduíche. Dou especial destaque ao molho chimichurri

Chefes na Rua, Minhocao, Sao Paulo, Virada Cultural (6)

As meninas optaram pelo choripan de carne, que não ficou atrás do tradicional de linguiça

Checho tomou a liberdade de criar e ofertar três sabores de choripan em sua barraca disputada: o tradicional de linguiça (minha opção), um sanduíche com pedaços de frango – que me pareceu bastante tentador – e outro de carne, o escolhido pelas meninas (também estava bom).

Depois do sanduba, com a careca queimando e a vontade de aliviar a bexiga aumentando, a possibilidade de seguir com o programa ficava remota.  Quanto mais as horas se aproximavam do meio dia, mais cheio o elevado ficava. Dúvida cruel: enfrentar outra meia hora pela costela do Benny (do Ici Bistrô)? Merece, mas naquelas condições eu tive de deixar pra próxima.

Ligamos o pisca alerta e tomamos a esquerda em direção ao Largo de Santa Cecília e dali para a República. O choripan não foi suficiente para suprimir nossa fome (reservada também a outros pratos). O pedido, e a espera, valeram a pena, mas tínhamos que arrumar outro canto um pouco mais calmo para continuar a comer.

Ano que vem espero ir novamente ao mesmo evento, até porque considero a iniciativa sensacional, mas certamente a produção terá redimensionar suas previsões de público (colocar uns banheiros e umas barraquinhas com cervejinha também não faz mal a ninguém…).