A Mercearia dos Três Antônios

A Mercearia dos Três Antônios

De São Paulo:

Fazia muito frio. Daqueles que quase dá vontade de desistir de sair de casa. Devidamente encasacados, enfrentamos a inércia e tomamos um táxi em direção a Perdizes. A intenção era seguir direto ao Pompéia Bar. Na esquina da Rua Doutor Miranda de Azevedo com a Rua Coronel Melo de Oliveira, o táxi freou no farol. Poderia ser apenas uma parada qualquer, no entanto foi mais do que um simples vermelho no sinal.

A brisa fria atravessava a fresta da janela do automóvel. Silvia apontou para o lado esquerdo: “Olha que bar interessante ali!”.  Mesmo no embaçado do vidro, com meu aguçado olhar de botequeiro, bastou um segundo para tomar a decisão: “Nós vamos ficar por aqui mesmo amigo”. Convidei a Silvia, então, para uma observação mais cuidadosa do botequim. Foi irresistível.

Adega, Bar e Mercearia Santo Antonio, Mercearia dos Tres Antonios, Vila Pompeia, Sao Paulo, mercearia de bairro (13)

O velho baleiro é um dos muitos detalhes interessantes na mercearia

Saltamos do auto e bastaram uns passos nossos para que o tempo nos reservasse uma chuvarada. Estávamos tão quentinhos no carro… O que poderia gerar arrependimento tornou-se uma feliz oportunidade. Tínhamos de esperar a chuva passar, então lá fomos para o abrigo do boteco. Mesmo antes de entrar já tinha percebido a relevância da inusitada descoberta: uma linda mercearia de bairro, simples e bem conservada.

Sou um colecionador aficionado de bares, mas antes de tudo também um fanático por mercearias e armazéns. Talvez seja pela memória afetiva que tenho deste comércio típico, que em outros tempos era comum na cidade aonde eu cresci – o Rio de Janeiro.

Aquela ali era uma imagem muito bacana para o meu álbum de figurinhas. Nada de figurinhas: gosto de registrar, divulgar e espalhar pela rede. Fotos, textos e tudo mais. É a maneira que eu tenho de procurar preservar este patrimônio.

Adega, Bar e Mercearia Santo Antonio, Mercearia dos Tres Antonios, Vila Pompeia, Sao Paulo, mercearia de bairro (18)

Não é só enfeite, disse o dono. A estante ainda preserva produtos básicos

Eu demorei a acreditar no achado. Pensava que fosse praticamente impossível encontrar mercearias assim na cidade de São Paulo, onde tudo se transforma e volta a transformar-se com grande, e nem sempre bem vinda, rapidez. Mas dá. Para a minha felicidade, vejo que são raros sim, mas não tanto quanto eu supunha.

Fomos calorosamente recepcionados. O dono de um lado do balcão e um único cliente do outro. Logo me apresentei e larguei elogios ao lugar, disparando ao mesmo tempo uma série de perguntas como uma criança tomada de curiosidade. Fundado em 1967, o nome oficial do estabelecimento é Adega, Bar e Mercearia Santo Antônio, no entanto os clientes conhecem o local como Mercearia dos Três Antônios.

Isto é facilmente explicável: o fundador é um português da Ilha da Madeira, de nome Antônio, que assim batizou também seu filho – o simpático moço que nos recepcionou ali atrás do balcão. A denominação, por sua vez, é uma homenagem a Santo Antônio, o qual filho e pai são devotos. São três Antonios no comando da casa. Santo Antônio está por todos os lados dando a sua benção aquele pequeno espaço, inclusive numa grande imagem disposta ao fundo.

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Santo Antônio está por todos os lados, por onde se olha…

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… e abençoa aquele pequeno e encantador botequim

É difícil crer que estamos numa metrópole enorme como São Paulo naquele clima gostoso de cidade de interior. “Era uma Adega” insistiu o dono, referindo-se ao tempo em que seu pai, o fundador, ofertava galões de vinho para os fregueses. Ainda há vinho no cardápio, mas o termo Adega saiu de moda. A mercearia, ainda bem, sobreviveu.

Como tal não poderia deixar de lhe faltar uma estante de madeira com produtos básicos para atender a clientela local: café, açúcar, farinha, feijão e enlatados, além de alguns itens de limpeza – entre outros. Não estão ali só para enfeitar, fez questão de afirmar Antônio. Parte da renda com o negócio ainda advém desta venda. De certa maneira dá para entender: numa região com ladeiras tão assustadoras como Perdizes e Pompéia, o comércio local ainda tem algum peso.

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No balcão é possível avistar algumas minutas expostas…

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…como cebolinhas, azeitonas portuguesas e tremoços

É claro que, como em muitos outros casos semelhantes, a mercearia só está de portas abertas por conta da venda do bar: cerveja e petiscos. Dia ou outro, como é comum, o bar toma de assalto o que restava da estante de produtos e a mercearia vira definitivamente um botequim. Por isso é gostoso estar em um local onde ainda é possível se testemunhar este misto de coisas, mesmo que apenas como um mero dado pitoresco.

Continuei me surpreendendo com aquele pequeno lugar quando vi no fundo uma geladeira com grande variedade de marcas de cervejas – que fogem das mesmices de boteco pé-sujo. Pedi uma Heineken: estupidamente gelada. Cerveja gelada fica ainda melhor no frio. Na estante reparei que os amantes de uma boa cachaça também não ficam decepcionados com os rótulos disponíveis por ali.

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Cliente assíduo, Marcos me sugeriu os churrascos de sábado da casa

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O caldo de piranha foi uma surpresa: gostoso e bem condimentado

Bateu uma fome, afinal já não era tão cedo e saímos justamente para jantar, lá no outro bar – que ficou para um depois quem sabe. A Mercearia dos Três Antônios (adorei este nome) oferta alguns petiscos básicos que ficam expostos no balcão: tremoços, mini salsichas, azeitonas portuguesas e outras minutas. Há também o cardápio de boca (a casa não tem um menu impresso). Antônio me recomendou o caldo de piranha para aquecer. Boa pedida.

A chuva estava passando, assim como as horas. Silvia e eu queríamos seguir com o nosso programa. Aquela noite ainda nos revelaria outras fantásticas surpresas, mas isto ficará para outro texto. Meu caldinho chegou enquanto eu trocava uma ideia com Marcos, cliente assíduo e único presente além de nós no bar.

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A casa conta com bons rótulos de cachaça e cervejas

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Os banquinhos junto ao balcão: um belo exemplar de mercearia para colecionar

Que delícia de caldo! Bastante condimentado, é bom frisar. Para mim não poderia estar melhor. Não é fácil encontrar caldo de piranha por ai. Marcos brincou dizendo que tem gente que apelida de piranha qualquer peixe. Quem sabe não seria um ‘blended’ de peixes… “O fornecedor do Mercado da Lapa é confiável”, retrucou Antônio. O que importa é que eu estava adorando.

Seguimos com o papo e recebi o convite para retornar numa tarde de sábado – sem chuva, é claro – quando Antônio põe as mesas de madeira do bar na calçada e prepara umas carnes num pequeno braseiro que tem disponível. Pareceu-me uma ótima ideia.

Com ajuda da Silvia logo demos cabo do caldinho. A chuva ainda insistia lá fora, mas decidimos que era hora de partir para outra pauta. Terminei os últimos goles da cerveja e nos despedimos daquela encantadora escala após uma última sessão de fotos para o meu álbum – que agora eu divido com vocês.

Adega, Bar e Mercearia Santo Antônio (Mercearia dos Três Antônios)

Funciona de segunda a sábado das 11h às 20h.

Rua Dr. Miranda de Azevedo, 698 – Pompéia. São Paulo (SP).

Contatos: (11) 3672–1286