O Doña Bertha é o que podemos literalmente dizer que é um restaurante familiar. A própria Doña Bertha cuida da parte da cozinha enquanto seus filhos, Marco e Martín Suárez, ajudam no salão e na administração do negócio.
São poucas mesas e apesar de simples, o local é muito bem decorado de objetos que remetem ao Peru, país de origem da matriarca. Bastante aconchegante para dizer a verdade.

Um restaurante peruano para quem busca comida peruana sem firulas. A sofisticação ali é ser atendido pelos próprios donos, bater um papo enquanto a cumbia rola solta nas caixas de som do local. Não tão alta que chegue a incomodar, mas não tão baixa que possa ser considerada uma música de fundo.
A imigração peruana que ajudou a moldar a gastronomia paulistana
A culinária peruana é uma parte relevante da identidade gastronômica de São Paulo. Estima-se que entre 30 e 35 mil peruanos vivam atualmente na capital paulista, formando uma das comunidades latino-americanas mais presentes na cidade.
Essa presença ajudou a consolidar restaurantes, lanchonetes, mercados e tradições culinárias que hoje fazem parte do cotidiano paulistano. O Doña Bertha nasceu justamente dessa história de imigração.
Logo após chegar ao Brasil, Doña Bertha começou vendendo quentinhas e lanches para sustentar a família. Com muito trabalho, abriu seu primeiro restaurante no próprio imóvel onde morava em 2014 e, em 2024, mudou-se para o endereço atual na Alameda Ribeiro da Silva, nos Campos Elíseos.

O ceviche e uma viagem até Callao
Comecei minha jornada pelo prato mais famoso do Peru: o ceviche. No Doña Bertha pedi a versão mista, preparada com peixe, camarão e lula, acompanhada de cancha (milho torrado) e batata-doce.
Enquanto experimentava o prato, lembrei de uma conversa que tive em Lima. Os peruanos costumam dizer que o ceviche se popularizou na região portuária de Callao, na capital.
Lá entre pescadores que consumiam o peixe recém-pescado, temperado com limão, sal e ají como uma refeição rápida e prática. Foi justamente em Callao que provei o melhor ceviche da minha vida até hoje.
Origem do ceviche
Mas a história do ceviche é ainda mais antiga. Suas origens remontam aos povos pré-colombianos da costa peruana, que já preparavam peixes frescos curados com suco de tumbo, uma fruta andina ácida, além de sal e pimenta.

Com a chegada dos espanhóis vieram o limão, a cebola e novas técnicas que ajudaram a moldar o prato como o conhecemos atualmente.
Mais tarde, já no século XX, a imigração japonesa refinou ainda mais a receita, introduzindo cortes mais precisos e uma valorização ainda maior da qualidade do pescado.
O ceviche do Doña Bertha estava equilibrado, apesar de utilizaram cubos de tilápia, que não é um peixe que curto muito. No entanto, o prato estava muito bom. Ácido na medida certa, com lula macia e camarões bem-preparados.
Arroz Chaufa: quando a China encontrou o Peru
Se o ceviche conta a história da costa peruana, o Arroz Chaufa retrata a imigração no país. Esse prato popular em Lima resume muito bem a interação cultural entre China e Peru. À primeira vista ele lembra um arroz frito chinês. E não é coincidência.
A receita surgiu no século XIX, quando milhares de imigrantes chineses, principalmente cantoneses, chegaram ao Peru. Adaptando suas receitas aos ingredientes locais, criaram pratos que acabariam dando origem a uma nova tradição culinária conhecida como Cozinha Chifa.

O próprio nome “chaufa” deriva da expressão cantonesa chǎo fàn, que significa literalmente “arroz frito”. No Doña Bertha experimentei o Arroz Chaufa de Mariscos, preparado com camarões, lula, mexilhões, ovo, cebolinha, gengibre e shoyu.
É um daqueles pratos que talvez não tenham a fama internacional do ceviche, mas que ajudam a entender por que a gastronomia peruana é considerada uma das mais interessantes do mundo.
Muito além da comida
O Doña Bertha também carrega uma história de resistência. Em 2023, o restaurante ganhou repercussão nacional após sofrer ataques xenofóbicos e campanhas de ódio nas redes sociais.
O episódio foi triste, mas acabou fortalecendo ainda mais a relação da casa com a comunidade peruana e latino-americana da cidade. Hoje o Doña Bertha se tornou um símbolo da presença peruana em São Paulo. Uma história de imigração, trabalho, adaptação e pertencimento.

Pisco Sour para encerrar
Para finalizar a refeição, pedi um clássico: o Pisco Sour. O drinque mais famoso do Peru mistura pisco, suco de limão, açúcar, clara de ovo e angostura.
Sua origem é disputada entre Peru e Chile, assim como a própria origem do pisco, mas pouco importa quem venceu a discussão.
O importante é que ele continua sendo uma das melhores maneiras de encerrar uma refeição peruana.
Ainda mais quando acompanhado de uma “yapa”, aquele chorinho extra que os peruanos costumam oferecer com simpatia aos clientes.
Vale a visita ao Doña Bertha?
Sem nenhuma dúvida. Ao menos para mim, gosto muito do ambiente familiar do local, o fato dos donos estarem ali, atendendo, trocando uma ideia.

Todos são muito atenciosos e a comida é bem-feita. A sensação é como se estivéssemos na própria casa da Bertha, comendo uma refeição peruana caseira.
Espero que tenham gostado da dica. Quando derem um pulo lá não deixe de falar pra mim como foi a experiência no Instagram do Diários Gastronômicos , aqui no blog ou nos comentários do canal no Youtube.
Quem estiver procurando outras sugestões de bares e restaurantes em São Paulo dá um pulo na aba: comer e beber em Sampa
Dona Bertha – Comida Caseira Peruana
Endereço: Alameda Ribeiro da Silva 601 – Campos Elíseos, São Paulo / SP
Horário: Terça a Domingo das 12h às 16h
Instagram: @donaberthaperuana601
