Na Rua do Matoso, na Praça da Bandeira, encontrei um pequeno boteco especializado em peixes e frutos do mar que me deixou bastante impressionado, o Boteko do Peixe. Um pé-sujo singelo que ocupa um espaço pequeno, sem grandes preocupações com fachada ou decoração.
Quem passa pela rua talvez nem imagine que ali são servidos pratos como moqueca de cavaquinha, caldinho de sururu e uma casquinha de siri que entrou facilmente para a minha lista de favoritas no Rio.
Afinal, estamos falando de um boteco de bairro, com mesas de plástico na calçada, mas que oferece opções que poderiam perfeitamente aparecer em restaurantes da chamada “alta gastronomia”.
Não gosto muito desse termo, pois para mim não existe uma hierarquia entre os estilos de gastronomia. Todas são importantes, cada uma a sua maneira. Mas ele serve para exemplificar um estilo.

A experiência do Antiquarius e do Siri Mole por trás do balcão
A vocação marítima do Boteko do Peixe não surgiu por acaso. Durante minha pesquisa sobre o estabelecimento, descobri que seus proprietários passaram por dois restaurantes importantes da gastronomia carioca: o Antiquarius, no Leblon, conhecido pela cozinha portuguesa, e o antigo Siri Mole, no Posto 6, em Copacabana, famoso por seus peixes e frutos do mar.
Os dois restaurantes fazem parte da memória gastronômica do Rio de Janeiro. Infelizmente, já fecharam as portas, mas a experiência adquirida por seus antigos profissionais continua presente em outros endereços da cidade.
Segundo as informações que reuni, os proprietários assumiram o ponto da Rua do Matoso entre o final de 2014 e 2015, trazendo consigo não apenas conhecimento de cozinha, mas também experiência na escolha e na compra de pescados.
E isso ajuda a explicar o que encontrei por lá: um lugar despretensioso, com uma proposta simples, mas capaz de servir pratos bem elaborados.

Casquinha de siri: uma das melhores que comi no Rio
Comecei a jornada pela casquinha de siri, que já havia despertado minha curiosidade depois de ler os comentários de outros frequentadores. Foi um ótimo início de jornada.
De cara me chamou a atenção a quantidade de carne de siri. Não é daquele estilo me engana que eu gosto, onde ao invés de siri servem uma pasta de peixe. Ali é siri de verdade, puro siri.
O tempero também me agradou bastante. Com um pouco de limão e a pimenta da casa, a casquinha ficou ainda melhor.
Tenho uma referência importante quando o assunto é esse petisco, a casquinha de siri do Shirley, no Leme, que já visitei e escrevi aqui no blog.
Mas a do Boteko do Peixe me surpreendeu de verdade. Foi uma das melhores casquinhas de siri que comi no Rio de Janeiro e, sinceramente, fiquei na dúvida sobre qual delas merece o primeiro lugar se a da casa do Leme ou da Praça da Bandeira.

Moqueca de cavaquinha: luxo em um boteco de bairro
Se a casquinha de siri já havia criado uma boa expectativa, o prato seguinte era “oto-patamá” como diria Bruno Henrique.
Pedi uma moqueca de cavaquinha, crustáceo também conhecido como cavaca ou lagosta-sapateira. Parente da lagosta, ela tem uma carapaça mais achatada e uma carne branca, delicada, macia e levemente adocicada.
É um ingrediente valorizado na gastronomia e que não aparece com tanta frequência nos cardápios dos botecos cariocas. Por isso, encontrar uma moqueca preparada com cavaquinha em um estabelecimento tão simples foi uma surpresa.
A carne tem uma textura que me agrada muito. Particularmente, considero a cavaquinha até mais gostosa que a lagosta, justamente por sua maciez.
O legal é que ela é encontrada no litoral fluminense, com destaque para regiões como Cabo Frio e a Baía da Ilha Grande. É um produto associado à nossa costa, embora seu preço não seja exatamente popular.

Foi uma moqueca cara ou não?
A moqueca chegou à mesa acompanhada de arroz e farofa, com um molho preparado ao estilo baiano, levando dendê e leite de coco. Um prato farto, com pedaços generosos de cavaquinha mergulhados no caldo aromático.
Paguei R$ 180,00. Não é um prato barato, mas é preciso considerar o ingrediente utilizado. Estamos falando de um crustáceo valorizado, servido em quantidade generosa numa porção que alimenta duas pessoas. Levando isso em conta, achei o preço razoável. No entanto, não quer dizer que é barato…
O mais interessante é justamente esse contraste de estar sentado em um pequeno botequim da Rua do Matoso, em plena Praça da Bandeira, comendo uma moqueca de cavaquinha que não faria feio em um restaurante sofisticado.
A história da moqueca: um prato que conta a formação do Brasil
A origem da moqueca é associada às tradições culinárias indígenas, que já preparavam peixes assados e cozidos muito antes da chegada dos portugueses. Uma das hipóteses etimológicas relaciona a palavra moqueca ao termo tupi pokeka, associado a preparações de peixe envolvido em folhas.
Ao longo dos séculos, essas tradições se transformaram com a contribuição de diferentes culturas. Na Bahia, a influência africana teve papel fundamental na consolidação de uma versão que utiliza azeite de dendê e leite de coco.
Já a moqueca capixaba segue outro caminho, valorizando ingredientes como o azeite de oliva e o urucum, sem utilizar dendê ou leite de coco.
As duas versões desenvolveram identidades próprias e protagonizam uma das disputas mais conhecidas da culinária brasileira.
Como filho de baiano, tenho naturalmente um carinho especial pela moqueca da Bahia, mas gosto das duas. Ambos são pratos com muita história e sabor riquíssimo e que representam bem essa diversidade cultural do Brasil.

Caldinho de sururu: uma lembrança da cozinha nordestina
Depois de passar pela casquina de siri e a moqueca ainda deixei um espaço para encerrar com um caldinho de sururu.
O sururu é um molusco parente do mexilhão, muito popular na culinária nordestina, especialmente a baiana e a alagoana. É encontrado em áreas de manguezal, onde sua coleta faz parte da atividade tradicional de comunidades pesqueiras.
No Rio de Janeiro não é uma receita que apareça com facilidade nos botecos, por isso fiquei realmente feliz em encontrar na Rua do Matoso. Um local que servia era o Arataca, na Cobal do Leblon, um nordestino maravilhoso que infelizmente encerrou as atividades.
Tem um sabor muito característico e intenso. Eu acho maravilhoso, o tipo do caldinho que eu chamo de “levanta defunto”.
Vale a pena conhecer o Boteko do Peixe?
O Boteko do Peixe é o tipo de lugar que me agrada pela simplicidade e com uma cozinha de respeito. Para quem gosta de peixes e frutos do mar é um destino essencial.
Gostou da dica? Então quando der um pulo lá não deixe de falar pra gente como foi a experiência no Instagram do Diários Gastronômicos ou aqui no blog.
Encontre outras dicas de bares e restaurantes no Rio de Janeiro em: comer e beber no Rio
Meus pedidos
- Casquinha de siri — R$ 32,00
- Caldinho de sururu — R$ 32,00
- Moqueca de cavaquinha — R$ 180,00
Boteko do Peixe
Endereço: Rua do Matoso, 125 – Loja P – Praça da Bandeira, Rio de Janeiro (RJ)
Horário de funcionamento: Domingo e segunda, das 8h às 17h; quarta a sábado, das 8h às 20h.
Telefone: (21) 3576-7520
Instagram: @botekodopeixe
Algumas fontes de consulta utilizadas na pesquisa do texto
🔗 Diário do Rio – Haddock Lobo, esquina com Matoso
🔗 O Dia – Só podia ser no Divino
🔗 Guia MICHELIN – Moqueca representa as origens do Brasil
🔗 A TARDE – Sururu, o molusco com nome indígena que tem o sabor da Bahia
🔗 Revista Brasileira de Ciência Veterinária – artigo científico
