O Demi Boteco fica numa dessas esquinas do Rio que parecem existir numa dimensão própria. A Rua Bento Lisboa, no encontro entre Catete, Flamengo e Laranjeiras tem seu próprio tempo.
Ônibus dobrando a curva, aposentados observando o movimento, camelôs, gente correndo para o metrô, senhores jogando carteado na praça e um eterno carnaval de pombos sobrevoando o Largo do Machado.
De uns anos pra cá o Largo começou a mudar. Novos bares surgiram, restaurantes abriram as portas e uma nova geração passou a ocupar aquela região histórica da cidade.

Foi nesse cenário que apareceu o Demi Boteco, um lugar que me chamou atenção logo de cara justamente por fazer uma união bem-vinda de um bistrô francês com um boteco carioca.
O mais curioso é que a mistura não parece forçada. É como se aquele bar sempre tivesse pertencido ao Largo do Machado.
Os sócios Thierry e Stéphane, franceses radicados no Brasil há mais de duas décadas, entenderam algo importante sobre o Rio de Janeiro: tudo aqui acaba se tornando carioca de alguma forma. E o Demi é justamente isso, um bistrô com jeito de botequim.
Sardinha escabeche, Marseille e o Rio de Janeiro
Achei simbólico começar minha jornada por uma sardinha à escabeche (R$ 24,00). A sardinha é uma ponte gastronômicas entre o Rio de Janeiro e cidades mediterrâneas como Marseille.
O escabeche é uma técnica de conservação trazida pelos mouros para a Península Ibérica e depois abraçada por portugueses, espanhóis e franceses. Se tornou um preparo típico do Rio.
Dois lugares sempre me veem a cabeça quando penso em escabeche: a Adega Pérola, em Copacabana e o restaurante Shirley, no Leme.
O carioca sempre teve uma relação quase afetiva com a sardinha. Haja vista, por exemplo, o mais célebre preparo do peixe na cidade, o Frango Marítimo, ou a sardinha empanada aberta e espalmada.
A versão do escabeche do Demi vem servida num pequeno pote, acompanhada de pão sourdough da Araucária. Sardinhas marinadas no azeite temperado, pimentões, cebola e cenoura. Tudo muito bem-preparado e equilibrado.

Moules Frites no Largo do Machado
Esse é considerado o prato nacional da Bélgica, onde teve origem. Eu me fartei de comer Moules na Bélgica, quando estive por lá. Porém, é um prato tão popular na França que é muitas vezes associado à culinária francesa.
Historicamente comer mexilhões era ligado as classes mais desfavorecidas. Os mexilhões na costa da Bélgica eram considerados a carne dos pobres, de tão abundantes e importantes como fonte de alimentação.
A união com as batatas fritas veio a partir do século XIX, mas o prato ganhou status mais sofisticado no restaurante Chez Léon em Bruxelas, que criou essa combinação mais refinada. Depois passou a ser adotado como um prato de bistrô também na França.

Nos costões do Rio e na Baia de Guanabara os mexilhões também são muito abundantes. Uma das memórias que tenho desde a infância é do cheiro que emanava dos latões onde o povo cozinhava mexilhões nas pedras juntos as águas da baia.
Até hoje caminhando pelo Aterro do Flamengo você encontra alguém catando e cozinhando mexilhões. Mas por aqui é mais comum encontrar os mexilhões servidos ou a vinagrete ou a escabeche, como manda a tradição galega e portuguesa.
Muitas vezes também misturado com arroz ou em caldos como o Leão Veloso, que a despeito de ter sido criado no Rio, tem total inspiração no bouillabaisse de Marselha.
Moules-frites (R$ 62,00 no Demi), infelizmente, sempre foi raro de encontrar em terras cariocas. Por isso que eu fiquei tão absurdamente alegre quando vi que eles serviam em pleno Largo do Machado. Eu amo demais esse prato.
O conjunto é formado pelos mexilhões cozidos no vapor e levados quentes à mesa numa tigela. Um dos segredos está nesse caldo fantástico, o clássico molho marinière, a base de vinho branco, manteiga e outras especiarias. As vezes também é servido com um molho à base de creme de leite.
Eu poderia facilmente passar uma tarde inteira ali só repetindo esse ritual de mexilhão, frita e chope gelado.

Entrecôte, fritas e molho francês
Se existe um prato que representa perfeitamente a ideia de bistrô francês, talvez seja o entrecôte com fritas. O Demi serve uma versão muito honesta do clássico parisiense. Bife ancho no ponto sanguinolento, coberto pelo molho da casa e acompanhado de fritas (R$ 58,00).
O conceito de servir apenas l’Entrecôte com um molho de manteiga e ervas e fritas foi criado originalmente pelo Café de Paris de Genebra, na década de 1940.
Os franceses, no entanto, deram outra dimensão ao prato a partir dos anos 50 em Paris, no Relais de Venise, que adotou o modelo de restaurante com um prato só, depois popularizado pela rede l’Entrecôte de Paris. Como muitos pratos franceses, um dos destaques da receita está no molho.
O molho original suíço era a base de manteiga (conhecido mundialmente como molho Café de Paris), mas a versão parisiense evoluiu para um molho verde de ervas e especiarias cuja receita é um segredo de família guardado a sete chaves.

Aos poucos, porém, versões do molho foram sendo criadas em diferentes bistrôs, não havendo um único modo de preparo. Ainda assim, é algo bem complexo envolvendo aí mais de 20 ingredientes entre manteiga, ervas, condimentos e especiarias, além das técnicas de cozimento específicas.
Você também tem as batatas fritas, novamente elas. Eu nunca me canso de fritas, posso comer batatas fritas pelo resto da minha vida sem parar.
Não é à toa que na língua inglesa você fale french fries, a melhor batata frita que comi na minha vida até hoje foi em Paris. Os caras sabem fritar uma batata.
Entre Costelas
O entrecôte é um corte de carne bovina nobre da região da costela. O termo em francês significa, literalmente, “entre costelas”.

No Brasil é conhecido como filé de costela ou bife ancho que é o nome argentino, onde o corte é muito popular. Nos Estados Unidos eles também servem como ribeye.
Enquanto o entrecôte vem da parte dianteira e tem mais gordura interna, o contrafilé tradicional é retirado da parte traseira, sendo mais magro e com fibras mais longas. É para mim um dos cortes mais saborosos do boi.
Patê de campagne e a França rural
Ainda arrumei espaço para finalizar a jornada com um patê de campagne (R$ 29,00). O patê servido no Demi é produzido pela charcutaria artesanal carioca Cochon Rouge.
O patê de campagne nasce da França rural, da necessidade de conservar carne e aproveitar integralmente o animal. Diferente dos patês mais cremosos, ele possui textura mais firme, rústica e profundamente saborosa.
Servido com mostarda, picles e pão sourdough, foi o encerramento perfeito para essa tarde franco-carioca.
Vale a pena conhecer o Demi Boteco?
Sem nenhuma dúvida. Não é um restaurante francês tentando parecer sofisticado e nem um boteco usando referências francesas apenas como estética. Eles construíram uma identidade única por ali.
Você percebe isso no ambiente descontraído, na trilha sonora e principalmente na comida.
Além disso, é muito fácil de chegar. O bar fica praticamente ao lado do metrô Largo do Machado, cercado por inúmeras linhas de ônibus. E como eu sempre digo: vá de transporte público ou aplicativo, pois cerveja e volante definitivamente não combinam.
E você, já foi no Quick Galetos? Prefere ele ou o Sat’s ou outra casa de galeto? Deixe seu comentário no Instagram do Diários Gastronômicos , aqui no blog ou no canal no Youtube.
Quem estiver procurando outras dicas de bares e restaurantes no Rio de Janeiro dá um pulo na aba: comer e beber no Rio.
Demi Boteco
Endereço: Rua Bento Lisboa, 184, Loja C – Catete, Rio de Janeiro / RJ
Horário: Funciona de terça a sábado das 12h às 23h30. Domingo das 12h às 17h
Para saber mais: Instagram/demiboteco
