O Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, na Freguesia do Ó, é uma das regiões mais antigas da cidade de São Paulo. E foi justamente ali que fui em busca de um dos petiscos mais emblemáticos da culinária paulistana: a coxinha de galinha.
Entre casarões antigos, bares tradicionais e a igreja que marca a história do bairro, está o Frangó. Muita gente diz que ali se serve uma das melhores coxinhas da cidade. Eu concordo. Mas o Frangó vai muito além da coxinha.
A origem da coxinha de galinha
A coxinha talvez seja o salgado mais popular de São Paulo e existem diversas versões para sua origem. Uma das mais famosas vem da cidade de Limeira, no interior paulista.

Segundo a lenda, o salgado teria surgido na Fazenda Morro Azul, onde a Princesa Isabel e o Conde D’Eu mantinham um filho com deficiência que se recusava a comer qualquer outra coisa que não fossem coxas de frango fritas.
Conta-se que, em determinado momento, faltaram coxas de frango na cozinha da fazenda suficientes para fritar. Para contornar a situação, a cozinheira teria desfiado a carne disponível, envolvido em massa e moldado o salgado no formato de uma coxa. A história ficou tão popular que Limeira realiza até hoje a Festa da Coxinha.
Mas, como costuma acontecer na gastronomia, a verdade histórica provavelmente é mais complexa. Há fortes indícios de que a origem da coxinha esteja ligada à culinária francesa.

Em 1780, o cozinheiro Lucas Rigaud, que trabalhou para a corte portuguesa, publicou no livro Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha uma receita de coxas de frango empanadas e fritas.
Décadas depois, em 1844, o célebre chef Antonin Carême publicou uma receita de croquette de poulet, um croquete de frango moldado em formato de pera.
Seja qual for sua verdadeira origem, o fato é que a coxinha se popularizou em São Paulo ainda no século XIX, tornando-se um alimento muito consumido pelas classes trabalhadoras. Com o tempo, espalhou-se pelo Brasil e virou um dos maiores símbolos das estufas dos botecos país a fora.
E a versão servida no Frangó certamente está entre as mais celebradas da cidade.

Coxinhas feitas à mão e fritas na hora
No Frangó, as coxinhas são preparadas de forma totalmente artesanal. Cada unidade é enrolada à mão e frita na hora. O recheio leva peito de frango desfiado, refogado com temperos e um pouco de Catupiry, sem exageros.
Esse detalhe do Catupiry sempre divide opiniões entre os puristas da coxinha. O tradicional requeijão foi criado em 1911 por uma família de imigrantes italianos em Minas Gerais e é preciso dizer que seu uso muitas vezes passou a ser exagerado.
Inclusive talvez seja mais fácil encontrar coxinhas com frango e Catupiry do que só a original com a carne. Eu gosto de coxinha Catupiry, mas sem perder a linha. Como no caso do Frangó em que o ingrediente aparece com muita moderação, sem dominar o sabor do frango.

Eu abri com uma porção de mini coxinhas (10 unidadesR$ 69,00). Parece muito, mas comi todas elas me deliciando.
É uma coxinha espetacular e muito bem frita, com aquela casquinha crocante e sequinha. O tipo de salgado que você poderia comer indefinidamente.
De rotisserie a boteco clássico de São Paulo
A história do Frangó começa em 1987, quando Valdecyr e dona Maria, pais de Cássio, abriram ali uma pequena rotisserie que tinha como destaque os frangos preparados na grelha à carvão.
Na época, o espaço era apenas a parte da frente do atual bar. Além dos frangos, vendiam, tortas, saladas, bolos e comida para viagem.

Enquanto esperavam pelos pedidos alguns clientes começaram a pedir um salgado, como a coxinha, e a casa passou a oferecer cerveja para aliviar a espera.
O paraíso das cervejas
Cássio, apaixonado por cervejas, começou a trazer rótulos importados, algo raro na época. O bar então passou a atrair outros frequentadores interessados em experimentar novas cervejas.
O que era um ritual de espera para os produtos da rotisserie foi gradualmente se transformando em um bar. Assim, os clientes passaram a comer os frangos no local com uma cerveja, ao invés de levar pra casa.
Segundo Norberto de Oliveira Neto, o Norba, sócio do Frangó, o processo aconteceu naturalmente. As mesas foram aumentando, o salão foi se expandindo e o bar ganhou novos espaços. Inclusive um grande ambiente que antes era o quintal da casa nos fundos.

Durante muito tempo o bar manteve centenas de rótulos de cervejas diferentes, muitos deles importados. Atualmente a casa trabalha com cerca de 200 opções de cerveja.
Entre elas está a cerveja da casa, produzida em parceria com a cervejaria Dama Bier, de Piracicaba. É uma Hop Lager leve (R$ 39,00a garrafa de 600 ml), refrescante e com presença equilibrada de lúpulo. Ideal para acompanhar friturinhas como coxinha e frango à passarinho.
Frango à passarinho com muito alho
Depois das coxinhas, outro clássico de boteco que também é muito requisitado por lá, o frango à passarinho (R$ 89,00).
A origem do nome é curiosa e cercada de versões. Alguns dizem que estaria ligada ao antigo costume brasileiro de caçar pequenos pássaros. Outros atribuem a receita aos imigrantes italianos do sul do país.

Fato é que o petisco se tornou um dos mais populares dos bares brasileiros. É difícil você não encontrar a opção de frango à passarinho no cardápio de um boteco.
No Frangó, ele chega à mesa dourado, crocante e coberto por uma generosa camada de alho frito, que por lá eles apelidaram de “pipoca de alho”.
O Largo da Matriz e a história da Freguesia do Ó
Visitar o Frangó também é uma oportunidade de conhecer melhor a história da Freguesia do Ó, um dos bairros mais antigos de São Paulo.
A ocupação da região começou ainda no século XVI e o bairro se desenvolveu em torno da devoção a Nossa Senhora da Expectação, conhecida popularmente como Nossa Senhora do Ó.
A primeira capela dedicada à santa foi construída no início do século XVII. Em 1796, um decreto da rainha portuguesa Dona Maria I criou oficialmente a freguesia. Naquele então a cidade de São Paulo só tinha mais uma freguesia, a da Sé.

A igreja original acabou destruída por um incêndio em 1896. Com a construção da nova Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, inaugurada em 1901, o largo passou a ocupar sua posição atual. O antigo largo da Freguesia do Ó, chamado atualmente de Largo da Matriz Velha, fica logo ao lado.
O local onde está a igreja é o coração do bairro, reunindo bares, restaurantes e casas históricas. Entre eles está a tradicional Pizzaria Bruno, fundada em 1939, também localizada no largo.
Um bar que faz parte do bairro
Os imóveis ao redor do Largo da Matriz são tombados pelo patrimônio histórico, incluindo o prédio do Frangó, construído em 1894. Isso é raro numa cidade como São Paulo que está longe de tratar bem o seu patrimônio.

Apesar de hoje ser um bar grande e bastante conhecido, o Frangó ainda mantém um caráter comunitário. Muitos clientes se conhecem, frequentam o bar há décadas e existe até uma mesa dedicada a um grupo que se encontra ali regularmente.
É o tipo de lugar onde você entra para comer uma coxinha e acaba passando a tarde inteira. A experiência é ainda mais agradável por conta do atendimento muito gentil da equipe.
Espero que tenham gostado da dica. Quando derem um pulo lá não deixe de falar pra mim como foi a experiência no Instagram do Diários Gastronômicos , aqui no blog ou nos comentários do canal no Youtube.
Quem estiver procurando outras sugestões de bares e restaurantes em São Paulo dá um pulo na aba: comer e beber em Sampa
Frangó Bar
Endereço: Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168 – Freguesia do Ó – São Paulo
Horário: Terça e quarta das 11h às 23h. Quinta a sábado das 11h às 00h. Domingo das 11h às 18h.
Contato: (11) 3932-4818
Instagram: @frangobar
Site: frangobar.com.br
Fontes de pesquisa também utilizadas para produção do texto e do vídeo
- 196flavors.com/coxinha-de-frango
- revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Comida/Reportagens/Comida/noticia/2016/03/historia-da-coxinha-rainha-do-boteco.html
- comerciarios.org.br/noticias/22237-Roteiro-revisita-o-largo-da-Matriz-que-reune-o-novo-e-o-tradicional-na-Freguesia-do-O

