Edinho do Caranguejo: uma viagem de trem até um dos botecos mais tradicionais da Baixada Fluminense

Naquele dia, saí cedo do Rio de Janeiro e peguei o trem rumo a Duque de Caxias para visitar um dos botecos mais tradicionais da cidade, o Edinho do Caranguejo, fundado em 1983 e uma referência quando o assunto é peixes e frutos do mar.

Viajar de trem pelo Rio ainda é uma pequena aventura urbana. A paisagem muda vagarosamente pela janela.

Vista da Central do Brasil, no Centro do Rio de Janeiro, onde peguei o trem do ramal Saracuruna para Duque de Caxias e ao Edinho do Caranguejo
Vista da Central do Brasil de onde tomei o trem para Duque de Caxias
De trem até Caxias

Os prédios altos da Zona Sul e do Centro vão cedendo espaço aos bairros da Zona Norte, às antigas áreas industriais e aos municípios da Baixada Fluminense.

É um percurso que revela outro Rio de Janeiro, distante dos cartões-postais, mas profundamente ligado à história econômica, cultural e gastronômica do estado.

Infelizmente, também é impossível fazer esse trajeto sem pensar no abandono da nossa malha ferroviária. O ramal Saracuruna, por onde passei naquela manhã, existe desde o século XIX.

É uma ferrovia que ajudou a integrar o Rio de Janeiro, transportou e transporta trabalhadores. Hoje, apesar de continuar fundamental para milhares de pessoas, convive com estações degradadas, problemas de infraestrutura e uma sensação permanente de que poderia ser muito melhor.

Diferente do carro, em que normalmente seguimos preocupados apenas em chegar ao destino, o trem permite observar mais a cidade. Cada estação parece um ambiente particular, revelando detalhes que só dá para reparar ali do vagão.

Vista do Centro de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, mostrando prédios, palmeiras e a região onde funciona o tradicional Edinho do Caranguejo.
Centro de Duque de Caxias, onde está localizado o tradicional Edinho do Caranguejo
Muito além da imagem industrial

Quando alguém fala em Duque de Caxias, muita gente pensa imediatamente na Reduc, no intenso movimento de caminhões ou em uma cidade essencialmente industrial e meio bagunçada. Essa imagem existe, claro, mas está longe de resumir o município.

Caxias é uma das cidades mais importantes da Baixada Fluminense, com uma população superior a 900 mil habitantes e uma vida comercial extremamente intensa. Seu centro ultra movimentado reúne lojas tradicionais, mercados populares, além de bares e restaurantes que há décadas fazem parte da rotina dos moradores.

Quem mora no Rio costuma atravessar a cidade inteira para conhecer um restaurante famoso na Zona Sul, mas raramente faz o caminho inverso em direção à Baixada. E isso é um erro. A região preserva uma cultura de botequim muito rica. O Edinho do Caranguejo é um desses lugares.

Salão externo do Edinho do Caranguejo, em Duque de Caxias, com mesas ocupadas por clientes em um ambiente típico de boteco.
O Edinho do Caranguejo possui um amplo salão aberto
Um restaurante que virou patrimônio afetivo

A poucos minutos de caminhada da estação ferroviária, no Centro de Duque de Caxias, fica o Edinho do Caranguejo.

Ele começou como um negócio familiar e continua sendo administrado pelos filhos do fundador, entre eles Douglas Flauzino. Ao longo de mais de quatro décadas, a casa cresceu, ampliou o salão e conquistou clientes de toda a Baixada Fluminense, mas sem abrir mão da simplicidade.

O ambiente é amplo, arejado e com muitas mesas, onde se vê reunidas famílias e grandes grupos de amigos.  Fui numa terça-feira e, ainda assim, boa parte das mesas já estava ocupada no almoço.

Porção de trilha frita servida com limão no Edinho do Caranguejo, famosa pela fritura crocante.
A trilha frita foi o grande destaque da visita e entrou para a lista das melhores que já experimentei
Trilha Frita para começar

Assim que olhei o cardápio e vi uma imagem de trilha frita já sabia exatamente por onde começar.

Quem acompanha o Diários Gastronômicos sabe que trilha é um dos meus peixes prediletos junto com a sardinha.

A trilha ainda é um peixe pouco valorizado fora do litoral. É encontrada com facilidade ao longo da costa brasileira, especialmente no Sudeste, e durante décadas esteve presente na alimentação das comunidades pesqueiras por ser abundante e relativamente barata e bastante presente na culinária fluminense.

Ela costuma ter um sabor marcante que muitos associam ao camarão. Isso acontece porque sua alimentação é baseada justamente nesses pequenos crustáceos. O que também influencia na sua coloração levemente avermelhada.

A travessa chegou à mesa com quatro trilhas até grandes e perfeitamente douradas. Acompanhava algumas fatias de limão e a indispensável pimenta da casa. O que sempre me rende uns pontos para o local.

Bastou a primeira mordida para perceber que eu havia começado muito bem aquela viagem.

A melhor trilha frita que já comi

Eu sigo acreditando que fritar é uma arte. E aquela porção de trilha me levou mais uma vez a essa conclusão. A casquinha era fina, seca e extremamente crocante. Por outro lado, a carne do peixe se mantinha úmida e delicada.

Um pouco de limão, uma colher da pimenta da casa e mais uma mordida. Naquele momento tive a certeza de que estava diante de uma das melhores trilhas fritas que já experimentei.

O segredo está na fritura

A fritura é quase um exame de admissão de qualquer cozinha. No Edinho, isso ficou evidente desde o primeiro prato. Nada de óleo encharcando a travessa, nada daquela farinha escura que denuncia óleo queimado. Tudo chegava seco, leve e incrivelmente crocante.

É o tipo de detalhe que muitas vezes passa despercebido, mas faz toda a diferença. Talvez por isso o peixe frito tenha conquistado tanta fama por ali quanto o próprio caranguejo.

André Comber segura um grande caranguejo servido no Edinho do Caranguejo durante gravação do Diários Gastronômicos.
A especialidade da casa é o tradicional caranguejo cozido em caldo temperado
Não podia sair sem um caranguejo

Era impossível visitar um restaurante chamado Edinho do Caranguejo sem pedir justamente o prato que lhe deu fama.

E lá estava ele na tigela de barro fumegante. Um exemplar imponente de caranguejo-uçá mergulhado em um caldo aromático, que segundo me disseram leva alho, cebola, ervas frescas e outros temperos.

E claro, um detalhe fundamental: o martelinho. Porque comer caranguejo é um ritual. Mas tenho de confessar que nunca fui exatamente um especialista nesse ritual de quebrar caranguejos…

No começo até tentei manter certa elegância, mas poucos minutos depois já havia desistido completamente. Quem come caranguejo sabe que não existe muita cerimônia. É uma comida para usar as mãos, se melar todo e fazer barulho.

A quantidade de carne, convenhamos, nem é tão grande. Boa parte da experiência está no próprio processo de quebrar as patas, descobrir pequenos pedaços escondidos dentro da carapaça e aproveitar o caldo que acompanha o prato enquanto se bate um papo e bebe uma gelada.

Close de um caranguejo inteiro servido no caldo temperado do Edinho do Caranguejo, em Duque de Caxias.
O caranguejo é cozido lentamente em um caldo com alho, cebola, ervas e temperos
O vendedor de caranguejos da minha infância

Enquanto tentava, sem muito talento, desmontar aquele caranguejo, lembrei da minha infância. Quando eu era criança no Flamengo, existia um personagem que passava pelas ruas do bairro carregando duas grandes varas de madeira cheias de caranguejos vivos pendurados pelas patas.

De longe já era possível ouvi-lo anunciando: “E aí o Caranguejo, olha o caranguejo aí ó!”

Eu sempre tentava correr para ver da janela e quando possível ainda descia até a rua para admirar os bichos e suas garras. Na época eu nem imaginava de onde aqueles caranguejos vinham.

Hoje sei que muitos eram capturados justamente nos manguezais do fundo da Baía de Guanabara, especialmente na região de Magé e Guapimirim.

O caranguejo-uçá e os manguezais da Baía

O caranguejo servido no Edinho costuma ser o uçá, espécie típica dos manguezais brasileiros. Embora atualmente muitos exemplares utilizados pelo restaurante venham do Nordeste, do Espírito Santo e de outros fornecedores fluminenses, sua história está profundamente ligada aos mangues da Baía de Guanabara.

Ali ainda sobrevivem comunidades tradicionais de catadores de caranguejo. O catador entra no manguezal durante a maré baixa e captura o animal praticamente com as próprias mãos.

É uma atividade que atravessa gerações, mas enfrenta inúmeros desafios. A expansão urbana, a poluição da Baía e a perda de áreas de manguezal reduziram bastante a disponibilidade do crustáceo em diversas regiões, inclusive a área do município de Duque de Caxias onde não há mais pesca.

Por isso existe também o período conhecido como andada, quando acontece a reprodução da espécie. Durante essa fase, a captura é proibida por lei.

Porção de pescadinha frita servida com limão no Edinho do Caranguejo, em Duque de Caxias.
A pescadinha frita chamou atenção pela fritura leve e crocante
A pescadinha frita e as memórias que a comida desperta

Depois da batalha com o caranguejo, resolvi voltar para um território onde me sinto mais confortável, o do peixe frito.

Entre as opções a casa oferecia corvina e pescadinha. Ambos são peixes que gosto muito, mas tenho um especial apreço por pescada.

Durante muitos anos frequentei um boteco chamado Picote, no bairro do Flamengo. Era um bar galego-carioca tradicional que infelizmente fechou as portas. Foi ali que me graduei na botecagem, posso dizer.

E a pescadinha frita do Picote era uma instituição. Por isso ainda guardo muito carinho por esse peixe.

Uma fritura que merece aplausos

Se a trilha já havia me impressionado, a pescadinha confirmou que aquilo não tinha sido obra do acaso. Eles realmente dominam a arte da fritura.

A carne da pescadinha permanecia úmida, delicada e extremamente suculenta enquanto uma camada fina e dourada criava aquela textura crocante que faz qualquer amante de peixe frito sorrir antes mesmo de dar uma mordida.

O cardápio do Edinho do Caranguejo, boteco tradicional em Duque de Caxias, Rio de Janeiro
As opções mais pedidas no cardápio do Edinho
Pescada, um peixe muito tradicional da culinária brasileira

Quando falamos em pescada, em realidade, estamos nos referindo a um grupo de espécies bastante comuns na costa do país, entre elas a pescada-branca e a pescada-amarela.

Elas sempre estiveram presentes nas peixarias, nos mercados municipais, nos botequins e no dia a dia das casas de quem mora no litoral.

Quem cresceu no Rio de Janeiro provavelmente já comeu filé de pescada empanado em casa, na escola ou em algum restaurante de bairro. Ele faz parte da memória de muita gente.

Assim como a sardinha, a manjuba e a trilha, pertence ao que chamo culinária popular praiana carioca.

Rã à dorê servida com limão no Edinho do Caranguejo, tradicional restaurante de Duque de Caxias.
A rã à dorê é uma das opções menos conhecidas do cardápio
Uma sobremesa anfíbia

Resolvi fechar a minha jornada com uma rã. Bati o olho nela desde que cheguei no boteco, mas deixei como um plus. Para encerrar fazendo as vezes de uma sobremesa anfíbia.

Eu adoro carne de rã e já a citei algumas vezes aqui no blog. Mas talvez esse seja um dos alimentos que mais despertam preconceito na culinária brasileira.

Curiosamente, a carne de rã já foi muito mais popular no Brasil do que é hoje. Durante décadas, especialmente entre as décadas de 1970 e 1990, a ranicultura recebeu incentivo em diversas regiões do país.

Muitos restaurantes incorporaram a rã ao cardápio, principalmente em São Paulo, Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Com o tempo, entretanto, ela foi desaparecendo da maioria dos estabelecimentos.

Hoje continua sendo relativamente fácil encontrá-la em alguns restaurantes tradicionais, mas já não ocupa o espaço que teve no passado.

É uma pena, porque se trata de uma carne extremamente leve, rica em proteínas e, principalmente, deliciosa.

Rã não tem gosto de frango

Muita gente diz que rã tem gosto de frango. Não sei.  A textura lembra muito mais a de um peixe firme do que a de uma ave. O sabor também muito particular, suave e delicado. Difícil de comparar com qualquer outra carne.

A versão preparada pelo Edinho seguia exatamente a linha dos outros pratos com uma fritura impecável. Não poderia terminar essa jornada de maneira melhor.

Fachada do Edinho do Caranguejo, em Duque de Caxias, com o letreiro do restaurante inaugurado em 1983.
O Edinho do Caranguejo tornou-se uma das principais referências em peixes e frutos do mar na Baixada
Muito além dos frutos do mar

Vale dizer que apesar da fama construída em torno dos peixes e crustáceos, o cardápio do Edinho vai muito além do mar.

Quem prefere carne encontra costelas, contrafilé, linguiças, torresmo de barriga e diversos petiscos tradicionais. Portanto, nem todo mundo precisa gostar de peixe para curtir a visita.

Mas para mim, com aquele cardápio cheio de boas opções de peixes, fica difícil imaginar pedir qualquer outra coisa…

Vale pegar um trem até Caxias?

Sem nenhuma dúvida. O Edinho do Caranguejo entrou para a minha lista daqueles lugares aos quais pretendo voltar.

Não apenas pela trilha frita, mas por todo o conjunto. Um cardápio com muitas opções, a fritura impecável, o atendimento muito gentil. Enfim. Um boteco cheio de qualidades e que é parte da identidade de Duque de Caxias.

O que experimentei
  • Trilha frita – R$ 47,00 (4 unidades)
  • Caranguejo (unidade) — R$ 17,00 (Servido inteiro em caldo temperado)
  • Pescadinha frita em postas — R$ 22,00 (porção)
  • Rã à dorê — R$ 42,00 (unidade)
  • Amstel 600 ml — R$ 11,00
  • Coca-Cola KS — R$ 6,50

E você, já foi ao Edinho do Caranguejo? Deixe seu comentário no Instagram do Diários Gastronômicos , aqui no blog ou no canal no Youtube.

Quem estiver procurando outras dicas de bares e restaurantes no Rio de Janeiro dá um pulo na aba: comer e beber no Rio.

Endereço: Rua Humberto de Campos, 143 – Centro – Duque de Caxias – RJ

Horário: Segunda a quarta: 12h às 23h30. Quinta a sábado: 12h às 0h

Instagram: @edinhodocaranguejo

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