Desde 1957: a história do Salete e suas empadas lendárias

Sempre que vou ao Maracanã, costumo passar no Salete. Às vezes para uma empada e um chope rápido antes dos jogos do Flamengo. Outras apenas para encontrar amigos.

O curioso é que, apesar de frequentar o Salete há anos, eu nunca tinha parado para dedicar a ele um episódio inteiro do Diários Gastronômicos.

Talvez porque alguns lugares acabem se tornando tão familiares que a gente esquece de olhar para eles com a atenção que merecem.

Fachada do Restaurante Salete na Tijuca com letreiro histórico e entrada do estabelecimento fundado em 1957.
Localizado na Rua Afonso Pena, o Salete é um dos restaurantes mais tradicionais da Tijuca
Salete, um clássico da Tijuca

Num dia frio – coisa rara no Rio de Janeiro — atravessei a porta do restaurante pouco antes de meio dia. O salão ainda estava vazio e o silencio permitiu que eu me atenta-se aos detalhes do bar que normalmente passam despercebidos no corre-corre pré-maracanã.

É um belíssimo botequim, com sua parede de azulejos azul e branco de um lado e um longo balcão do outro.

Há dois salões, o mais antigo, original, comprido, onde fica o referido balcão. E um anexo mais recente, que veio bem a calhar nos dias em que o bar está cheio.

Vista interna do salão do Restaurante Salete com mesas, cadeiras e mural colorido representando empadas, camarões e ingredientes da culinária da casa.
Em 2020 o Salete ampliou o espaço com um novo e bem vindo salão
Um bar de alma galega

Fundado em 1957 pelo espanhol Manolo, o Salete carrega uma herança que mistura influências galegas, portuguesas e cariocas.

Na parede a imagem de Nossa Senhora da Salete explica o nome do lugar. Seu Manolo era um grande devoto. Figura conhecida no bairro, o espanhol é sempre lembrado por seu bom humor.

Após seu falecimento, em 2020, o bar passou a administrado pelas mulheres da família. A matriarca Dona Martha ao lado de suas filhas e netas. Sim, um boteco que tem as mulheres no comando.

Empada de costela com agrião aberta ao meio, revelando recheio de costela desfiada no Restaurante Salete.
A empada de costela com agrião com carne desfiada macia
As melhores empadas do Rio

Se existe um símbolo capaz de resumir a alma da casa, ele certamente é a empada.

A empada de camarão talvez seja a definição mais precisa do que eu espero de uma empada carioca.  A massa podre se desfaz nas mãos, o recheio é cremoso sem exageros e o camarão aparece na medida certa. É o tipo de receita que não tenta reinventar nada porque simplesmente não precisa. Já alcançou seu ponto de equilíbrio há muito tempo.

Ainda assim, confesso minha preferência por outra estrela da casa: a empada de costela com agrião. Desde a primeira vez que provei ela se tornou um pedido obrigatório. Costela e agrião é uma combinação muito carioca. Colocá-la dentro de uma empada foi uma ideia genial.

Empada de camarão tradicional do Restaurante Salete servida em prato personalizado da casa na Tijuca, Rio de Janeiro.
A empada de camarão do Salete é considerada por muitos clientes a melhor do Rio de Janeiro

As empadas atravessaram séculos desde as cozinhas medievais da Península Ibérica até encontrarem seu lugar definitivo nos botequins do Rio. Em terras cariocas ganharam uma massa mais amanteigada, recheios mais cremosos e uma relação íntima com os frutos do mar. Talvez por isso pareçam tão naturais na cidade.

Risoto de polvo do Salete

Após as empadas, era hora de decidir o pedido principal. Pensei no Polvo à Salete, uma travessa com tentadores tentáculos de molusco, batatas ao murro e arroz de brócolis. Acabei, no entanto, decidindo pelo risoto de polvo. Às vezes os desvios de rota acabam se revelando os melhores caminhos.

Panela de ferro com risoto de polvo servido no Restaurante Salete acompanhada de queijo ralado.
Servido em panela de ferro, o risoto de polvo do Salete pode ser dividido facilmente

Servido numa pesada panela de ferro, o arroz cremoso é generoso nos tentáculos macios do molusco. A porção alimenta duas pessoas facilmente. Ainda mais porque não dá para dispensar por ali umas duas empadas de entrada.

É um belo exemplo do tradicional “risoto carioca”, ou seja, preparado com arroz branco. Diferente do risoto italiano com arroz arbóreo. Talvez por ser carioca, eu tenha uma tendência a gostar mais do estilo a la Guabanara.

Gostei demais do prato, me lambuzei até não aguentar e ainda assim deixei a panela cheia de comida, o que me rendeu um excelente almoço no dia seguinte em casa.

Close de colher retirando porção de risoto de polvo cremoso servido em panela de ferro no Restaurante Salete.
O Risoto de Polvo com sua textura cremosa

Ao deixar o Salete naquela tarde tive a sensação de que finalmente havia feito justiça a um lugar que me acompanha há tantos anos. Poucos dias depois já estava lá de volta para minha rotina pré-jogo, traçando umas empadas antes de partir para o Maracanã.

Gostou da dica? Então quando der um pulo lá não deixe de falar pra gente como foi a experiência no Instagram do Diários Gastronômicos ou aqui no blog.

Encontre outras dicas de bares e restaurantes no Rio de Janeiro em: comer e beber no Rio

Meus pedidos:

Empada de Camarão Tradicional — R$ 13,30

Empada de Costela com Agrião — R$ 12,80

Risoto de Polvo — R$ 190,00

Endereço: Rua Afonso Pena, 189 – Tijuca – Rio de Janeiro (RJ)
Horário: Terça a quinta-feira das 10h às 22h. Sexta-feira das 10h às 23h. Sábado e domingo das 10h às 20h.
Contato: (21) 2264-5163 / (21) 2214-0408

Para saber mais:
instagram.com/restaurantesalete

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