“Que importa a paisagem, a Glória, a Baía, a linha do horizonte. O que eu vejo é o Beco.” Manuel Bandeira escreveu esses versos nos tempos em que morava no sobrado de esquina na Rua Joaquim Silva, onde hoje está o Bar do Adalto.
Em meio à transformação da Glória, o surgimento de bares mais descolados e ao crescimento da cena boêmia da região, o Bar do Adalto segue firme como um verdadeiro ponto de resistência de botecagem raiz.

Pequeno, simples e democrático, por ali você divide a mesa, puxa conversa com a clientela ao lado e toma uma das cervejas mais geladas da cidade.
Fui até lá numa terça-feira, fugindo do movimento mais intenso do fim de semana, para provar dois clássicos da casa: os pastéis e a feijoada que por ali é servida todos os dias.

Um boteco raiz na divisa entre Glória e Lapa
Localizado na Rua Joaquim Silva, o Bar do Adalto ocupa um ponto histórico da cidade. A região vem passando por uma valorização interessante, com novos bares surgindo, o que tem incentivado a reforma do casario antigo que dá charme ao bairro.
Ao lado do Bar do Adalto fica o célebre Beco do Rato, reduto clássico do samba carioca. Aos domingos, a região ganha ainda mais vida com a tradicional Feira da Glória, que se transformou ao longo dos anos de uma feira de alimentos em um imenso evento cultural, reunindo comida de rua, brechós, artesanato e música.

É nesse cenário que o Bar do Adalto se mantém como um refúgio para quem busca comida boa, farta e barata em qualquer hora do dia ou da madrugada.
Museu da botecagem da Lapa
Um dos detalhes mais marcantes do bar é sua decoração. As paredes são cobertas por fotos de clientes, frequentadores e referências da música e do futebol. Esse ritual de ir colocando fotos foi iniciado por Adalto, o simpático dono e sempre presente recebendo todos com um sorriso.

Aos poucos os próprios frequentadores começaram a trazer as suas fotografias para adicionar ao local, seja na parede ou sob o tampo de vidros das mesas. Isso transforou o bar num verdadeiro museu da botecagem da Lapa.
O que comer no Bar do Adalto
O cardápio segue a linha clássica dos botecos cariocas. Durante a semana, o destaque vai para os pratos executivos, com preços bastante acessíveis, a partir de R$ 22,00. São opções como carne assada, fígado, frango e calabresa, sempre acompanhados de arroz, feijão e outras guarnições a escolha.

Ainda rola uns petiscos para quem quiser apenas bebericar. Nada muito sofisticado. Eu comecei com uma porção mista de 12 pastéis (carne, queijo e camarão) por R$ 35,00. São pequenos pastéis, então a porção acaba rápido, ainda mais acompanhado.
Bom início de conversa para disfarçar minha fome.
Feijoada todo dia no Rio de Janeiro
Enquanto muitos lugares servem feijoada apenas às sextas e sábados, no Bar do Adalto ela está disponível diariamente. E a feijoada de lá segue o padrão da cidade. A versão completa, que dá fácil para dois, sai a R$ 50,00.
Uma cumbuca vem com as carnes, entre as quais o paio, carne seca, lombo, barriga e rabo de porco. Junto a ela uma travessa com o feijão, outra de arroz e uma terceira coberta de couve e torresmos.

A farofa vem separada em dois pequenos copinhos tipo de café. Acho que foi o único ponto fraco do conjunto, poderia ser mais bem servida. De resto uma boa feijoada, com destaque especial ao torresmo maravilhoso de lá.
A história da feijoada: entre lendas e influências
A feijoada é um desses pratos históricos brasileiros cercados de mitos. Há diferentes versões sobre a sua história.
Uma das origens muito difundidas é que teria surgido nas senzalas, a partir do aproveitamento de partes menos nobres do porco que não eram comidas pelos senhores. Essa versão é hoje, no entanto, questionada por alguns historiadores.
Os Europeus e portugueses sempre valorizaram os miúdos de porco e muitos pratos com origem portuguesa levam miúdos com sarapatel e dobradinha por exemplo.

Como muitas receitas brasileiras, talvez o mais correto seja dizer que a feijoada é resultado de uma mistura de influências: a indígena, com o uso do feijão preto, originário das Américas, a africana, com os temperos e a tradição dos ensopados e guizados e a portuguesa, com os cozidos e o aproveitamento integral do porco.
Estudiosos como Luís da Câmara Cascudo apontam que a alimentação no Brasil colonial já incluía combinações de feijão, carne seca, farinha ou angu. Incluindo a dos escravizados. O que reforça a ideia de que a feijoada é um prato construído ao longo do tempo.

A forma como conhecemos hoje, com arroz, couve, farofa, torresmo e muitas vezes a laranja, provavelmente se consolidou nos restaurantes do Rio de Janeiro ao longo do século XIX.
O Bar do Adalto vale a pena?
Sim! Em qualquer hora do dia ou da noite é um porto seguro para bater uma refeição farta e barata. Ele inclusive é conhecido pelo seu extenso horário de funcionamento. Abre cedo e segue até a madrugada.

A noite também servem ótimas opções de caldo como mocotó e vaca atolada. Porções que são a salvação da madrugada.
Bar do Adalto
Endereço: Rua Joaquim Silva, 13, Lapa/Glória, Rio de Janeiro / RJ
Horário: de segunda a sábado: 7h às 4h. Domingo das 7h às 22h
Contato: (21) 2221-8376
Instagram: @bardoadalto
Já conhece o Bar do Adalto? Tem algum boteco raiz na Glória ou na Lapa que eu preciso visitar? Me conta nos comentários do blog, no Instagram do Diários Gastronômicos no canal no Youtube.
Quem estiver procurando outras dicas de bares e restaurantes no Rio de Janeiro dá um pulo na aba: comer e beber no Rio.
