Bar do Cabral: a dobradinha ao lado do Palmeiras

Existem lugares que passam despercebidos durante anos diante dos nossos olhos. O Bar do Cabral foi um desses casos para mim. Durante os quinze anos em que vivi em São Paulo, passei incontáveis vezes pela região da Água Branca.

Morei na Vila Romana, frequentei Perdizes, atravessei a Avenida Francisco Matarazzo sem contar quantas vezes e, mesmo assim, nunca havia entrado naquele pequeno botequim instalado na Rua Padre Antônio Tomás, praticamente à sombra do estádio do Palmeiras.

Foi preciso que um leitor do canal, Luiz Fernando Gonçalves de Brito, me enviasse uma mensagem acompanhada de um PIX e um desafio gastronômico para que eu finalmente atravessasse aquela porta.

Prato de dobradinha servido com arroz no Bar do Cabral, restaurante tradicional da Água Branca em São Paulo.
Bucho bovino, feijão branco, linguiça calabresa, costelinha de porco e peito bovino, acompanhado de arroz

A missão era simples: “Vai lá provar a dobradinha do Cabral. É a melhor de São Paulo.”

Para quem acompanha o Diários Gastronômicos há algum tempo, sabe que eu tenho uma relação especial com a dobradinha. É um daqueles pratos que dividem opiniões. Há quem torça o nariz antes mesmo de provar. Há quem não suporte a textura do bucho bovino. E há os apaixonados, categoria na qual me incluo sem qualquer constrangimento.

Diante de uma recomendação tão enfática de meu amigo, não havia como recusar.

Vista do entorno do Allianz Parque a partir das mesas externas do Bar do Cabral na Água Branca em São Paulo.
Das mesas externas do Bar do Cabral é possível observar o entorno do Nubank Parque
Água Branca: e a história industrial de São Paulo

O Bar do Cabral foi fundado em 1976 e permanece funcionando no mesmo endereço até hoje. Isso é um grande feito em uma cidade que tritura sua memória por novos empreendimentos imobiliários.

A região ao seu redor conta uma parte da história de São Paulo. Ali ao lado está o Nubank Parque, antigo Parque Antártica. Pouca gente se lembra que aquele terreno já pertenceu à Companhia Antarctica Paulista, que depois foi para Mooca.

O nome Parque Antártica se referia justamente a área de lazer dos funcionários da cervejaria, com campos esportivos que antecedem até mesmo a fundação do Palmeiras.

Ambiente interno do Bar do Cabral, tradicional restaurante e bar da Água Branca em São Paulo, próximo ao Allianz Parque.
O salão do Bar do Cabral preserva a atmosfera dos tradicionais botequins paulistanos

Defronte ao estádio fica a Casa das Caldeiras, com suas enormes chaminés preservadas, remanescente do antigo complexo das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo.

Enquanto a cidade se verticalizou, os galpões desapareceram e os terrenos mudaram de função. Um milagre, portanto, testemunhar um antigo predinho de esquina com um boteco dos anos 70 por ali.

Comida do dia a dia do Bar do Cabral

Existe uma categoria de estabelecimento que eu costumo chamar de “lanchonete-boteco paulistana”. São lugares que abrem cedo para servir café da manhã, atendem trabalhadores da região durante o almoço e encerram o expediente no anoitecer.

Não dependem de decoração temática, não precisam de marketing sofisticado e sobrevivem porque servem comida boa. Sobretudo porque vão construindo uma relação com a comunidade, a clientela fiel. O Cabral se encaixa nessa categoria.

Mesas simples, ambiente sem frescura, atendimento direto e um cardápio cheio de opções para todos os gostos, nada muito elaborado. Comida do dia a dia.

André Comber segurando uma tigela de dobradinha servida no Bar do Cabral, tradicional restaurante da Água Branca em São Paulo.
Segurando uma tigela de dobradinha servida no Bar do Cabral
A dobradinha do Cabral

Cheguei em uma terça-feira por um motivo específico. É o dia da dobradinha. Recebi grandes recomendações do prato e estava com bastante expectativa.

Quando o prato chegou à mesa, já gostei da apresentação, uma tigela fumegante, lotada de bucho com linguiça calabresa defumada, costelinha de porco, peito bovino e feijão branco. Lindo prato.

Saboroso também. Curti muito. A linguiça defumada caiu muito bem, assim como o peito bovino. Uma dobradinha bem robusta e sortida. Fiquei realmente pensando se foi a melhor que já comi…

Rio de Janeiro x São Paulo

No Rio de Janeiro a dobradinha é um prato bastante comum em bares tradicionais, portanto, como carioca, inevitavelmente comecei a fazer comparações.

Normalmente no Rio vem acompanhada do paio, legumes e um caldo mais encorpado.

Na versão paulista a calabresa assume o papel do paio. O peito bovino foi uma ótima novidade no prato. A costelinha nem sempre está presente na Guanabara.

Posso afirmar agora com tranquilidade que, das dobradinhas que provei em São Paulo, essa foi a melhor e ela não deve absolutamente nada às grandes dobradinhas que costumo encontrar nos botequins cariocas.

Vista externa do Bar do Cabral na Água Branca, tradicional restaurante próximo ao Allianz Parque em São Paulo.
O Bar do Cabral funciona desde 1970
Vale a visita?

Sem dúvida. Mesmo que você não seja fã de dobradinha, o Bar do Cabral é um boteco tradicional que eu chamo de bar comunitário, muito ligado à sua vizinhança e preservando a sua clientela de antigos frequentadores.

Para quem vai a jogos, shows ou eventos no Nubank Parque, pode ser uma excelente parada antes do movimento tomar conta da região. Para quem gosta de explorar a gastronomia popular paulistana, é perfeito!

Quanto a mim, saí com a sensação de ter corrigido uma falha histórica. Passei anos andando por aquelas ruas sem conhecer um dos botecos mais interessantes da Água Branca. Às vezes a melhor pauta está justamente na esquina pela qual passamos a vida inteira sem entrar.

Espero que tenham gostado da dica. Quando derem um pulo lá não deixe de falar pra mim como foi a experiência no Instagram do Diários Gastronômicos , aqui no blog ou nos comentários do canal no Youtube.

Quem estiver procurando outras sugestões de bares e restaurantes em São Paulo dá um pulo na aba: comer e beber em Sampa 

Meus pedidos:

Dobradinha – R$ 42,00
Água mineral com gás (500 ml) – R$ 6,00

Bar Café Cabral

Endereço: Rua Padre Antônio Tomás, 187 – Água Branca – São Paulo/SP

Horário: Segunda a sábado, das 6h às 19h

Contato: (11) 3801-9264

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.